quarta-feira, 14 de julho de 2010

"Cada um de nós é como um livro...
Que guarda sua própria história, com início, meio e fim...
Nosso corpo é só uma casa onde a alma habita
e a morte é o último vôo de nossa alma...
Que parte por não caber mais nessa casa,
como se quisesse começar uma nova história, um novo livro.
Cada minuto que passa pode ser tudo que me resta para viver,
mas eu desperdiço o tempo como se ele fosse infinito.
Penso, logo sei que existir é uma circunstância. "

(Texto, retirado do livro de poesias de
Pedro Cassiano Navarro (autor fictício),
recitada pelo personagem Daniel,
na novela Escrito nas Estrelas)

terça-feira, 8 de junho de 2010

Me reinvento

Sou isso hoje, amanhã já me reinventei.
Reinvento-me sempre que
a vida pede um pouco mais de mim.
Sou complexa, sou mistura,
sou mulher com cara de menina.
E vice-versa.
Me perco, me procuro e me acho.
E quando necessário,
enlouqueço e deixo rolar.
Não me dôo pela metade,
não sou tua "meio" amiga
nem teu "quase" amor.
Ou sou tudo ou sou nada.
Não suporto meio termos.
Sou boba, mas não sou burra.
Ingênua, mas não santa.
Sou pessoa de riso fácil...
mas choro também.

Clarice Lispector

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Mais uma vez

Às vezes é melhor deixar
A onda passar
Às vezes é melhor virar a página
E recomeçar
Tudo de novo, tudo de novo
Mais uma vez
Às vezes é melhor sorrir
Que imaginar
Às vezes é melhor não insistir
E deixar rolar

E tratar as sombras com ternura
O medo com ternura
E esperar

Às vezes é melhor deixar
O grito escapar
Às vezes é melhor perder o controle
E desabar

E quebrar todas as promessas
Todas as promessas
E atacar

(Lobão)

CANÇÃO DA ALMA CAIADA

Aprendi desde criança
Que é melhor me calar
E dançar conforme a dança
Do que jamais ousar

Mas às vezes pressinto
Que não me enquadro na lei:
Minto sobre o que sinto
E esqueço tudo o que sei.

Só comigo ouso lutar,
Sem me poder vencer:
Tento afogar no mar
O fogo em que quero arder.

De dia caio minh'alma
Só à noite caio em mim
por isso me falta calma
e vivo inquieto assim.

Antonio Cícero

Meio termo

Ah! como eu tenho me enganado
como tenho me matado
por ter demais confiado
nas evidências do amor
como tenho andado certo
como tenho andado errado
por seu carinho inseguro
por meu caminho deserto
como tenho me encontrado
como tenho descoberto
a sombra leve da morte
passando sempre por perto
o sentimento mais breve
rola no ar e descreve a eterna cicatriz
mais uma vez,
mais de uma vez,
quase que fui feliz!

(Cacaso)

Só louco

Só louco
amou como eu amei
só louco
quis o bem que eu quis
Ah, insensato coração
Porque me fizestes sofrer
Porque de amor para entender
é preciso amar
Porque
Só louco...

(Dorival Caymmi)

Percepção

Eu vejo
com olhos cansados
a fome nos ossos,
nos ossos do ofício
dos desamparados...
Eu ouço
com ouvidos alerta
o som das barrigas,
o choro silente
de quem erra e acerta,
do ser diferente,
que é gente somente!
Eu provo
o sabor da injustiça,
o gosto-desgosto
das dificuldades...
e engulo mentiras,
sabendo verdades!
Eu toco
no que guardo de pura,
no meu eu escondido
e o percebo um amigo
em eterna procura...
Eu sinto
que o buscar incessante
pelo que não entendo,
pelo que não está perto,
me transforma no errante
mais lúcido e certo!

Sei lá! Sei lá!

Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem
Quem sou? um fogo-fátuo, uma miragem...
Sou um reflexo...um canto de paisagem
Ou apenas cenário! Um vaivém

Como a sorte: hoje aqui, depois além!
Sei lá quem sou?Sei lá! Sou a roupagem
De um doido que partiu numa romagem
E nunca mais voltou! Eu sei lá quem!...

Sou um verme que um dia quis ser astro...
Uma estátua truncada de alabastro...
Uma chaga sangrenta do Senhor...

Sei lá quem sou?! Sei lá! Cumprindo os fados,
Num mundo de maldades e pecados,
Sou mais um mau, sou mais um pecador...

(Florbela Espanca )

Ismália

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

(Alphonsus de Guimaraens)

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Eu...

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

Florbela Espanca

Sem remédio

Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou...
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.

E é desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!

Sinto os passos de Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!

E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!

Florbela Espanca

Desejos íntimos

"Em ti o meu olhar fez-se alvorada
E a minha voz fez-se gorgeio de ninho...
E a minha rubra boca apaixonada
Teve a frescura pálida do linho...

Embriagou-me o teu beijo como um vinho
Fulvo de Espanha, em taça cinzelada...
E a minha cabeleireira desatada
Pôs a teus pés a sombra dum caminho...

Minhas pálpebras são cor de verbena,
Eu tenho os olhos garços, sou morena,
E para te encontrar foi que eu nasci...

Tens sido vida fora o meu desejo
E agora, que te falo, que te vejo,
Não sei se te encontrei... se te perdi..."

Florbela Espanca

Confusa

Às vezes me sinto perdida,
Não sei que rumo tomar ,
São entraves que sempre encontro
Ao longo do caminhar .

Não sei se ando
Ou se paro,
Não sei se grito
Se calo .

Não sei se ignoro
Ou se atendo ,
Se protesto
Ou se defendo .

Não sei se afasto
Ou se abraço ,
Não sei se construo
Se desfaço .

Meio perdida na confusão do mundo ,
Meio perdida na confusão de mim ,
Meio perdida na confusão de tudo ,
Meio perdida na confusão sem fim .

Dividida entre a razão ( que diz não ) e a emoção ( que pede sim ) ...

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Saudades de mim...


As palavras já não saem
E as lágrimas também
Já não caem.
Não sei se o que se passa
Se a vida ainda me abraça
Ou se eu já morri.

Sei que já não sou,
Que não me reconheço
Nem tão pouco me pareço
Com a outra, que era eu
E que para mim morreu.

Tenho saudades de mim
Onde a vida corria sem fim
E a força das emoções
Soltava em jorradas
Gargalhadas,
Lágrimas e palavras
Em mil sensações.

Tenho mesmo saudades de mim...


Quero ser amada...

Quero ser amada
Preciso de alguém para amar,
louca, profunda e intensamente!...
Um amor que me tenha por inteira.
Quero um amor avassalador,
Que me mantenha viva e
que me faça sair de mim,
Que me faça leve, para que eu possa
fugir para bem distante,
deixá-lo sem rumo e desorientado,
perdido, sem saber de mim...
Quero que sinta minha falta...
Quero que ele me ame
em pensamento e em
cada mulher que vir,
e sem minha presença,
que enlouqueça de paixão,
que sinta doer seu coração
que ensandeça de desejo e
que sem mim...
desvaire com a minha ausência!
Difícil dizer o que vai em minha alma, mas...
Quero que esse amor louco,
sem limites,
destemido quando me encontrar,
saiba que só eu a ele pode amar e
me ame na areia fina da praia...
E entre beijos e abraços.
Que faça seu corpo deslizar sobre o meu,
sentido um amor profundo e avassalador
que grite alucinado, urre e gema,
dizendo que quer meu amor
como um lobo faminto...
E assim nós dois entrelaçados,
num amor desesperado!
E será assim
para entender que não é,
nunca será ninguém sem mim.
Quando ele me encontrar,
quero que sinta que não
sou a menina que eu era...
quero que me receba como homem,
com o coração de um menino
que sabe o que quer,
Que ele seja
determinado em me tomar nos seus braços,
e de menina me fazer mulher!
Depois disso, nós dois vamos entender...
Que um sem o outro não tem jeito de viver...

ARNEYDE T. MARCHESCHI

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Quero um amor pra vida inteira...

Quero alguém que faça minha vida vibrar,
Que me tire do chão num simples olhar,
Que domine o dom de me fazer sorrir...

Quero alguém que construa os sonhos ao meu lado,
Alguém pra chamar eternamente de "meu namorado",
Alguém que durma de rosto colado,
Que adormeça no aconchego dos meus braços...

Não quero uma ilusão que machuca,
Quero andar pela chuva
Sem medo de me molhar...

Quero alguém que faça com que eu me sinta amada,
Que me proteja quando a tempestade chegar,
Que não se importe se o tempo passar...

Alguém que seja capaz de observar os mais pequenos detalhes,
Que viva o amor com toda sua intensidade,
Que se apaixone por mim a cada novo amanhecer...

Se esse alguém não aparecer,
Não sei o que vou fazer,
Pode ser que o coração endureça,
E os sonhos deixem de me alimentar...

Será é querer demais?
Desejar esse alguém que me traga paz,
Que "aqueça o meu coração"?

Talvez eu seja atrevida:
Quero alguém que não minta,
E não queira me ver chorar...

Alguém que se preocupe comigo,
Que seja além de tudo um amigo,
Que adore passar horas a conversar...

Não quero que seja perfeito,
Só quero alguém que me ame do meu jeito...
Sem máscaras, sem medos, sem sensuras...

Quero apenas,
Amar.
(Pamela Rubia)


terça-feira, 11 de maio de 2010

Sei lá... a vida tem sempre razão

Hoje acordei assim, não sei o tempo frio me deixa melancólica, mas o fato é que hoje acordei assim... um pouco talvez menos gente! como dizia o inesquecível Raul Seixas (que tbm sou fã)... mas o fato é que estou insatisfeita com tudo! Meu poema de hoje são letras de músicas que definem o meu estado de espírito...

Tem dias que eu fico pensando na vida
E sinceramente não vejo saída.
Como é, por exemplo, que dá pra entender:
A gente mal nasce, começa a morrer.
Depois da chegada vem sempre a partida,
Porque não há nada sem separação.
Sei lá, sei lá, a vida é uma grande ilusão.
Sei lá, sei lá, só sei que ela está com a razão.
A gente nem sabe que males se apronta.
Fazendo de conta, fingindo esquecer
Que nada renasce antes que se acabe,
E o sol que desponta tem que anoitecer.
De nada adianta ficar-se de fora.
A hora do sim é o descuido do não.
Sei lá, sei lá, só sei que é preciso paixão.
Sei lá, sei lá, a vida tem sempre razão.
(Vinicius de Moraes)

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Tomara

Que você volte depressa
Que você não se despeça
Nunca mais do meu carinho
E chore, se arrependa
E pense muito
Que é melhor se sofrer junto
Que viver feliz sozinho
Tomara
Que a tristeza te convença
Que a saudade não compensa
E que a ausência não dá paz
E o verdadeiro amor de quem se ama
Tece a mesma antiga trama
Que não se desfaz
E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais...

Um dia você aprende que...

Não importa em quantos pedaços
seu coração foi partido
O mundo não para,para que você o conserte.
Aprendi que o tempo
Não é algo que posso
Voltar pra traz
Portanto sua alma ao
envez de esperaque alguém
lhe traga flores
Você aprende que realmente
pode suportar
que realmente é flores
e que pode ir muito mais longe
depois de pensar
que não se pode mais
E que realmente a vida
tem valor diante da vida
nossas vidas são traidoras
e nos fazem perdoar
o bem que poderiamos fazer
se não o medo de TENTAR....

Sonhar é preciso!

Sonhar é sair pela janela da liberdade,
é vaguear pelos caminhos
proibidos ou não.
É, sem ter um rumo qualquer,
ter um alvo a perseguir:
a felicidade.

Sonhar é não limitar-se a limites
sejam eles quais forem,
impostos ou não.
É fazer do impossível o possível
quando e como quiser o coração.

Sonhar é viver o passado no futuro
e o futuro no presente.
É ter o se quer
e afastar o que não se deseja
É despertar dentro de si
aquele ser criança.
É almejar a vida...

Pra sonhar não é preciso
ter passado, nem presente,
nem cultura, nem riquezas...
Pra sonhar não precisa fazer parte
de uma classe social
de uma faixa etária
ou de qualquer coisa que separe
um ser humano do seu semelhante
É preciso apenas ter esperança
pois sem esperança ninguém vive
e sonhar é viver...

Sonhar não é direcionar os pensamentos
ao que pode ser real
Mas sim tornar real,
mesmo que apenas na mente,
o possível e o impossível,
o real e o abstrato
o tudo e o nada
Num tempo e num lugar
a serem definidos
ao belprazer de quem sonha...

Sonhar é dar a própria vida
a um sentimento de bem-estar
e, sem restrições,
entregar ao coração as rédeas da razão
É viver com quem se ama
sentindo-se amado.
Sonhar é sair...
É vaguear...
É não ter rumo.
É ter um alvo.
É não limitar-se.
É fazer...
É sentir...
É amar...
É ser amado...
É ter esperança...
É viver!

Sonhar é preciso!

(Telmo)

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010


A primeira vez que li uma poesia de Flora Figueiredo
foi na última página da revista Cláudia,
numa sala de espera de um consultório médico.
Foi amor a primeira poesia...
Separei aquelas que considero as mais bonitas,
e devo confessar que aqui estão
todas que eu tive oportunidade de ler.

Sugestão

Faça o seguinte:
assopre o pensamento triste,
deixe escorrer a última lágrima,
conte até vinte.
Abra então a janela,
aquela que dá para o vôo dos pardais,
procure a luz que pisca lá na frente
( evite as sombras que ficaram lá pra trás ).
Ao encontrá-la,
coloque-a dentro do peito
de tal jeito, que possa ser notada
do lado de fora;
acrescente agora uma pitada de poesia,
do tipo que passa por nós todos os dias
e nem sequer consegue ser notada;
aumente o brilho,
com toda intensidade
de que um sorriso é capaz.
A felicidade é o seu limite,
e o paraíso é você mesmo quem faz.

(Flora Figueiredo)

A quem possa interessar

Meu amor anda maltratado.
Surrado,
falido,
falado.
De rasuras tantas,
que de gasto e farto
já nem se levanta
e mal se apruma.
De alegria já nenhuma,
com sulcos profundos
e definitivos;
com medos cativos
e sublinhados.
Mas é preciso não subestimá-lo
pois, quando quase murcho e moribundo,
ele é capaz de reerguer o afeto
e sob o beijo do amante predileto
reinventar o mundo.
(Flora Figueiredo)

Dor de cotovelo

Deve ser tratada com dignidade.
Não é virose,
epidemia de artrose,
nem mesmo falha de envelhecimento.
Independe da idade.

Costuma dar a sensação
de um escuro profundo,
onde a luz não chega,
onde a esperança é cega
e nossa estima é o rodapé do mundo.

Não acredite !
Como esse mal não transmite
nenhum perigo fatal,
pode ser prazeroso o colo de um amigo,
um abraço forte, como abrigo,
uma palavra doce,
um cafuné.

Acima de tudo, que se mantenha a fé,
muito pior do que passar por isso,
é sonegar emoção,
evitar o risco e o compromisso,
esconder-se atrás das grades da razão.

Quem hoje por amor está sofrendo,
só por amar, já merece estar vivendo.
(Flora Figueiredo)

Ilha


Não sei porque tanto mar em minha vida.
Ele que fala sempre em despedida,
que canta distância e solidão.
Por vezes parece até que ele vaza,
derruba minha porta,
invade minha casa,
ocupa minha cama,
lava meu chão.

Ele é que faz do leva-e-traz de cada onda
o mensageiro dos afetos separados
e que conserva segredos bem guardados
lá no horizonte,
onde a terra se arredonda.

São tantos anos de tamanha intimidade,
que hoje carrego a forte sensação
de que carrego a forte sensação
de que o mar alterou-me a identidade:
metade água e metade coração.
(Flora Figueiredo)

Dois


Dois:
a procurar nossas fragrâncias
entre sombras e reentrâncias,
a percorrer nossos roteiros,
a nos tornarmos parceiros.
Dois:
de repente nos engajamos
irremediavalmente
numa conduta lisa e calma,
engolindo do outro a própria alma
e nos mixamos.
Pra que depois
fundidos e misturados,
células e sangue consumidos
rolemos nossos núcleos confundidos
numa corrente mágica e comum.
Absorventes,
antropofágicos,
um.
(Flora Figueiredo)

Enlevo

Eu olho você grande e distante
e da sua grandeza me comovo
e da sua distância me revolto.
Olho de novo.
Procuro reter em minhas mãos sua figura
mas ela gesticula, oscila e cresce
e numa inconstância distraída
no instante exato
por trás da vida desaparece.
Um desacato.
Do meu desaponto eu me levanto
pra levar embora outro desencanto
mas você me divisa e então me chama.
Me aguarda, reclama e me convida
e minha vida nessa ansiedade por fim entrego.
E nesse amor feito de espuma colorida
nós flutuamos: você borbulha, eu escorrego,
ensaboados, você explode, eu me desintegro.
(Flora Figueiredo)

Comunicado

Só por hoje
vou rasgar os códigos.
Desacato as regras,
os preços módicos.
Só por hoje
desacredito das retas,
descarrilho do trilho,
desvio das setas.
Preciso de tempo pra sonhar,
respirar fundo e carregar na mão
o sal da vida e o mel do mundo.
Se o compromisso tocar a campainha,
peço que aguarde na casa vizinha,
mansamente, sem fazer alarde.
Mas comunico a todos pela imprensa
que sumiu a lucidez.
Pediu licença.
É só por hoje,
mas agora é minha vez.
(Flora Figueiredo)
Mais uma vez o tempo me assusta.
Passa afobado pelo meu dia, atropela minha hora,
despreza minha agenda.
Corre prepotente, para disputar lugar com o vento.
O tempo envelhece, não se emenda.
Deveria haver algum decreto que obrigasse
o tempo a desacelerar e a respeitar meu projeto.
Só assim, eu daria conta dos livros que vão se empilhando,
das melodias que estão me aguardando;
Das saudades que venho sentindo,
Das verdades que ando mentindo,
Das promessas que venho esquecendo,
Dos impulsos que sigo contendo,
Dos prazeres que chegam partindo,
Dos receios que partem voltando.
Agora, que redijo a página final,
Percebo o tanto de caminho percorrido
Ao impulso da hora que vai me acelerando.
Apesar do tempo, e sua pressa desleal,
Agradeço a Deus por ter vivido,
amanhecer e continuar teimando ...

Flora Figueiredo

domingo, 31 de janeiro de 2010


"Por muito tempo achei que ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência,

essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim."
Carlos Drummond de Andrade
Eu quero a sorte de um amor tranquilo
Com sabor de fruta mordida
Nós na batida, no embalo da rede
Matando a sede na saliva

Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum trocado pra dar garantia

E ser artista no nosso convívio
Pelo inferno e céu de todo dia
Pra poesia que a gente não vive
Transformar o tédio em melodia

Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum veneno antimonotonia

E se eu achar a tua fonte escondida
Te alcanço em cheio, o mel e a ferida
E o corpo inteiro como um furacão
Boca, nuca, mão e a tua mente não

Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum remédio que me dê alegria...


Composição: Frejat/Cazuza

O coração da fêmea é um labirinto de subtilezas que desafia a mente grosseira do macho trapaceiro.
Se quiser realmente possuir uma mulher, tem que pensar como ela, e a primeira coisa é conquistar-lhe a alma. O resto, o doce envoltório macio que nos faz perder o sentido e a virtude, vem por acréscimo.

(Carlos Ruiz Zafón, A Sombra do Vento)

Quase

Um pouco mais de sol — eu era brasa.
Um pouco mais de azul — eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador d'espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho — ó dor! — quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim — quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
— Ai a dor de ser-quase, dor sem fim... —
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol — vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

...........................................
...........................................

Um pouco mais de sol — e fora brasa,
Um pouco mais de azul — e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Mário de Sá-Carneiro

Novamente

me disse vai embora eu não fui
você não dá valor ao que possui
enquanto sofre o coração intui
que ao mesmo tempo que magoa o tempo
o tempo flui

assim o sangue corre em cada veia
o vento brinca com os grãos de areia
poetas cortejando a branca luz
e ao mesmo tempo em que machuca o tempo
me passeia

quem sabe o que se dá em mim
quem sabe o que será de nós
o tempo que antecipa o fim
também desata os nós

quem sabe soletrar adeus
sem lágrimas, nenhuma dor
os pássaros atrás do sol
as dunas de poeira
o céu de anil do pólo sul
a dinamite no paiol
não há limite no anormal

é que nem sempre o amor
é tão azul

a música preenche a tua falta
motivo dessa solidão sem fim
se alinham pontos negros de nós dois
e arriscam uma fuga contra o tempo
o tempo salta
(Fred Martins)

Como eu não possuo

Olho em volta de mim. Todos possuem ---
Um afecto, um sorriso ou um abraço.
Só para mim as ânsias se diluem
E não possuo mesmo quando enlaço.

Roça por mim, em longe, a teoria
Dos espasmos golfados ruivamente;
São êxtases da cor que eu fremiria,
Mas a minh'alma pára e não os sente!

Quero sentir. Não sei... perco-me todo...
Não posso afeiçoar-me nem ser eu:
Falta-me egoísmo para ascender ao céu,
Falta-me unção pra me afundar no lodo.

Não sou amigo de ninguém. Pra o ser
Forçoso me era antes possuir
Quem eu estimasse --- ou homem ou mulher,
E eu não logro nunca possuir!...

Castrado de alma e sem saber fixar-me,
Tarde a tarde na minha dor me afundo...
Serei um emigrado doutro mundo
Que nem na minha dor posso encontrar-me?...

Como eu desejo a que ali vai na rua,
Tão ágil, tão agreste, tão de amor...
Como eu quisera emaranhá-la nua,
Bebê-la em espasmos de harmonia e cor!...

Desejo errado... Se a tivera um dia,
Toda sem véus, a carne estilizada
Sob o meu corpo arfando transbordada,
Nem mesmo assim --- ó ânsia! --- eu a teria...

Eu vibraria só agonizante
Sobre o seu corpo de êxtases doirados,
Se fosse aqueles seios transtornados,
Se fosse aquele sexo aglutinante...

De embate ao meu amor todo me ruo,
E vejo-me em destroço até vencendo:
É que eu teria só, sentindo e sendo
Aquilo que estrebucho e não possuo.

Mario de Sá-Carneiro

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Pedaços de mim

Eu sou feito de
sonhos interrompidos
detalhes despercebidos
amores mal resolvidos.

Sou feito de
choros sem ter razão
pessoas no coração
atos por impulsão.
Sinto falta de
lugares que não conheci
experiências que não vivi
momentos que já esqueci.

Eu sou
amor e carinho constante
distraída até o bastante
não paro por um isntante.

Muitas vezes eu
desisiti sem mesmo tentar
pensei em fugir para não enfrentar
sorri para não chorar.

Eu sinto pelas
coisas que não mudei
amizades que não cultivei
aqueles que eu julguei
coisas que eu falei.

Tenho saudade
de pessoas que fui conhecendo
lembranças que fui esquecendo
amigos que acabei perdendo

Mas continuo vivendo e aprendendo.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Nunca fui como todos
Nunca tive muitos amigos
Nunca fui favorita
Nunca fui o que meus pais queriam
Nunca tive alguém que me amasse
Mas tive somente a mim
A minha absoluta verdade
Meu verdadeiro pensamento
O meu conforto nas horas de sofrimento
não vivo sozinha porque gosto
e sim porque aprendi a ser só...
(Florbela Espanca)

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Alma Cigana

Hoje eu acordei com a minh'alma cigana,
só ao céu quer como telhado e ao chão como cama,
quer a lua para a noite a proteger
e o Sol para de dia a aquecer.
O canto do grilo para a ninar
e o canto dos pássaros para a acordar.
Os figos da brava figueira para se alimentar
e os amigos, na noite à fogueira...
Sempre em alegre cavaqueira.
Quer o universo para sonhar,
Amor para partilhar
e Saúde para tudo isto apreciar...
Hoje resolvi dedicar uma parte do meu dia para a história de um povo com suas lendas, suas crenças, de suas músicas... tenho verdadeiro paixão, verdadeiro tesão, pois existe uma sensualidade contagiante e um mistério intrigante que envolve esse mundo cigano. Meu fascinio pela música e pela dança é de me arrancar suspiros, de flutuar em pensamentos e sonhar acordada, tudo neles é muito intenso, paixões de tirar o folêgo e gardiões da LIBERDADE, O grande lema do Povo Cigano é: " O céu é meu teto; a terra é minha pátria e a liberdade é minha religião". Mas devo ressaltar que a dança e a música são para mim a forma mais livre de expressão, o corpo responde ao que sentimos através da alma quando a música nos envolve. É tudo muito contagiante e apaixonante! Um pouco da história pra entender melhor o povo cigano, eu gostei é muito interessante.

Danças ao redor do fogo,
Meu adorado Cigano.
Teu corpo suado, teu olhar
Que penetra minh’alma,
Tal qual um punhal de prata,
Tocando meu coração,
Me instiga a segui-lo nesta
dança Cigana.

Entrego-me em teus braços
meu adorado Cigano,
me apertas contra teu peito,
fazendo-me flutuar nos passos
desta dança, ao som de violinos
que nos excita, e nos envolve
em fortes desejos.

Teu olhar, tuas mãos quentes,
teus passos firmes e bem cadenciados
nos levam a bailar ao redor do fogo
que brilha intensamente fazendo-se
arder em nossos corpos o calor
do desejo , da entrega, neste
Amor Cigano!

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Procura-se beijos que satisfaçam...

Estava eu passeando pela net, como sempre, a procura de um "algo" interessante, quando me deparei com este texto... Não pude deixar de ler, guardei por longo tempo em meus arquivos, porém por estes fazendo uma limpeza no computador, resolvi le-lo novamente, e fiquei com vontade de postar aqui, me desculpe a autora deste texto, muito bom por sinal, mas não consigo me lembrar em que blog eu li e no copiar e colar faltou o seu nome.
Mas como não podia deixar de divulgar, deixo aqui com um comentário: "Vale a pena ler".
A impressão que tenho é de que estamos todos tentando satisfazer um mesmo desejo, porém de maneira tão individualista e ansiosa que percebemos a noção do que realmente importa.Assim, a carência afetiva tem se transformado numa verdadeira epidemia. Vivemos num mundo onde tudo o que fazemos nos induz a ter cada vez mais. Um celular novo, um sapato de outra cor, uma jaqueta diferente, uma viagem em suaves prestações...E enquanto isso, nos sentimos cada vez mais vazios. Nossa voz interna faz um eco que chega a doer; e tudo o que poderia nos fazer sentir melhores seria apenas um pouco de carinho.A carência é tão grande, a sensação de solidão é tão forte que nos dispomos a pagar por companhia, por uma remota possibilidade de conseguir um pouco de carinho. Talvez você argumente: de forma alguma, eu nunca saí com uma garota ou um garoto de programa; jamais pagaria para ter carinho!.Pois é, mas não é de dinheiro que estou falando. Estou falando das escolhas que fazemos, indiscriminadamente, em busca de afeto; das relações sexuais fáceis e fugazes, da liberação desenfreada de intimidade, da cama que chega às relações muito antes de uma apresentação de corações... Expomos nossos corpos, mas escondemos nossos sentimentos de qualquer maneira!!!Ou, ao contrário de tudo isso, estou falando da amargura e do mau-humor que toma conta daqueles que não fazem nada disso, que se fecham feito ostras, criticando e maldizendo quem se entrega, quem transa, quem sai em busca de afeto a qualquer preço...Enfim, os extremos demonstram exatamente o quanto pagamos. De uma forma ou de outra, estamos pagando pelo carinho que não damos e pelo carinho que, muitas vezes, não nos permitimos receber.Ou seja, se sexo realmente fosse tão bom, poderoso e suficiente quanto prometem as revistas femininas, as cenas equivocadamente exageradas das novelas ou os sites eróticos, estaríamos satisfeitos, não é? Mas não estamos, definitivamente não estamos!Sabe por que? Porque falta conteúdo nestas atitudes, nestes encontros. Não se trata de julgamento de valor nem de pudor hipócrita. Não se trata de contar quantas vezes já esteve com alguém para saber se já pode transar sem ser chamada de ‘fácil’...Trata-se de disponibilidade para dar e receber afeto de verdade, sem contabilizar, sem morrer de medo de parecer tolo; sem ser, de fato, pegajoso ou insensível... apenas encontrar a sua medida, o seu verdadeiro desejo de compartilhar o seu melhor!Muito mais do que orgasmos múltiplos, precisamos urgentemente de um abraço que encosta coração com coração, de um simples deslizar de mãos em nosso rosto, de um encontro de corpos que desejam, sobretudo, fazer o outro se sentir querido, vivo. Tocar o outro é acordar as suas células, é revivescer seus poros, é oferecer um alento, uma esperança, um pouco de humanidade, tão escassa em nossas relações.Talvez você pense: mas eu não tenho ninguém que esteja disposto a fazer isso comigo, a me dar este presente. Pois é. Esta é a matemática mais enganosa e catastrófica sob a qual temos vivido. Quem disse que você precisa ficar à espera de alguém que faça isso por você?!?Não! Você não precisa, acredite! De pessoas à espera de soluções o mundo está farto! Precisamos daqueles que estão dispostos a serem a solução! Portanto, se você quer vivenciar o amor, torne-se o próprio amor, o próprio carinho, a própria carícia. Torne-se a diferença na vida daqueles com quem você se relaciona, para quem você se disponibiliza.A partir de hoje, ao invés de sair por aí dizendo que vai beijar muuuuito, concentre-se na sua capacidade de dar afeto e surpreenda-se com o resultado. Beije sim, sem se preocupar se é muito ou pouco. Beijar é bom, muito bom, sem dúvida; mas empenhe-se antes em trocar afeto, em se relacionar exercitando o respeito pelo outro, o respeito por si mesmo... e estou certa de que os encontros valerão muito mais a pena!

terça-feira, 9 de junho de 2009

Rachel Brice um fenomeno da dança tribal

Pessoal, sempre quis deversificar os assuntos, nem sempre consigo fugir das poesias, mas qdo montei o blog minha intenção era falar de muitos assuntos, inclusive sobre mim, mas me perco toda, sou do tipo que quero de tudo e tudo ao mesmo tempo, e no final acaba não asaindo nada. Mas agora vou falar uma das minhas paixões, a Dança, acho que meu sonho já vem de outras vidas, pois já me vi dançarina de Cabaret, daquelas como as dos filmes, lindas, sensuais, ousadas. Talvez pelo fato de saber que sou bem diferente, que tenho uma timidez quase caipira...rs que me faz sonhar, hoje faço aula de Dança do Ventre, quero descobrir se existe uma mulher acima das minhas expectativas, quero descobrir em mim a mulher linda que todas nós somos, com a essência da sensualidade, do se sentir linda, segura e cobiçada. Nossa eu amo a dança. Mas é verdadeiro o fato de que mexe sim com nossa auto-estima. E foi fazendo aulas de dança do ventre e procurando vídeos para observar os movimentos das bailarinas foi por total acaso que encontrei um vídeo e me apaixonei pela Dança do Ventre Tribal, embora não faça aula, já existe um casamento, pois descobri em mim um outro lado, o místico, o mistério, e nada mais justo eu falar um pouco de um fenomeno desta categoria, Rachel Brice, é perfeita. Conheçam um pouco da história:

Nascida em São Francisco, Califórnia, no início dos anos 70, Rachel Brice é hoje talvez a mais conhecida dançarina de dança do ventre em todo o mundo. Mas sua formação principal vem da yoga, prática que estudou e lecionou enquanto, paralelamente, trabalhava como quiropata. Sua aproximação com a dança oriental se deu em 1998 quando assistiu a um grupo que se apresentou na Califórnia. A partir daí, começou a aprender alguns passos por conta própria assistindo vídeos da mítica bailarina Suhaila Salimpour. Filmava-se para saber dos andamentos da experiência. Chegou ainda a ingressar num programa universitário de Dança Étnica e, em seguida, foi tomar aulas. Mas os acasos a levaram a prosseguir com a carreira terapêutica, o que a afastou de seu incipiente talento por quatro anos.

Brice foi descoberta em 2003 pelo polêmico empresário Miles Copeland - este constantemente acusado de ter transformado sua companhia de dança do ventre num negócio dos mais lucrativos, todo moldado como uma Las Vegas itinerante que conta até mesmo com seu próprio DVD de reality show. Ela passaria a integrar a mega companhia Belly Dance Superstars de Copeland e, no mesmo ano, monta sua própria companhia, a Indigo Belly Dance Company - que teve seu primeiro show de longa duração, a tournée Le Serpent Rouge, produzido em 2007, sob a batuta do mesmo empresário.
Através de seus precisos movimentos de serpente, Rachel Brice faz emergir uma atmosfera misteriosa onde a mulher está representada hermética, mergulhada em segredos próprios que certamente dizem respeito a um poder dominador e ele é revelado aos poucos numa sedução de força, ritmo e elasticidade. São segredos que a vida cotidiana quase faz esquecer, mas que estão lá resguardados na imemória das mulheres de todas as culturas.
Aqui você assiste ao impressionante vídeo da apresentação de Rachel Brice ao vivo de Paris, na tournée da companhia Belly Dance Superstars em 2005.


Morre Lentamente

Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajectos,
quem não muda de marca,
não se arrisca a vestir uma nova cor ou
não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o negro sobre o branco
e os pontos sobre os “is”
em detrimento de um redemoinho de emoções,
justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos,
corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa
quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto
para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida,
fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente quem não viaja,
quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente,
quem passa os dias queixando-se da sua má sorte
ou da chuva incessante.
Morre lentamente,
quem abandona um projecto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves,
recordando sempre que estar vivo
exige um esforço muito maior
que o simples facto de respirar.
Somente a perseverança fará
com que conquistemos
um estágio esplêndido de felicidade.
Pablo Neruda

terça-feira, 14 de abril de 2009

Dança do Ventre


Há quem me chame de Odalisca
E do meu amor ouse debochar
Esse, certamente, não se arrisca
Como homem me encarar...

Num momento diz-se garanhão
Saindo com muitas, por ele, apaixonadas
Noutro momento, diz-se na prisão
Amarrado a uma insignificante namorada...

Mal sabe ele, pobre plebeu,
Que quem decide esse impasse sou eu
Sou única, forte, mulher invencível
E seduzir-me, para ele, pode ser impossível..

. Sou mulher da dança do ventre
Meu ventre é místico e sagrado
Para que um homem nele entre
Deve ser, antes, muito macho e coroado...

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Dançarina da Noite

Enquanto a senhora Lua
vestida com roupas de prata,
embora nua,
nos vigia no alto do céu
nos dois adoradores da mata
dançamos um tango dolente
onde só as estrelas nos acompanham,
dançando também num ritmo caliente
Estamos aqui juntos, dançando.
Envoltos em luz
e as sombras nos rodeiam
saltitante por toda parte
O que é a luz?
Para mim é uma cruz,
É vida e morte,
é azar e sorte
é música e surdez
é dança e invalidez…
Mas quando a lua aparece
e como açoite sussurra maliciosa
o teu nome ao meu ouvido
sou.. dançarina da noite
de estrelas, de sombras e luar
busco-te, para um tango sofrido
juntos ao luar consigo dançar…
Helo Abreu

Sentir Flamenco

"Y ser flamenco es cosa:
es tener otra carne
alma, pasiones, piel, instintos y deseos;
es otro ver el mundo,
con sentido grande;
el sino en la conciencia,
la musica en los nervios;
fiereza independiente,
alegria con lagrimas
y odiar lo rutinario,
el mi todo que castra,
convertir en un arte sutil
y de capricho y libertad la vida..."
Tomás Borrás- 1936

Dançarina Flamenca

Ela derrama água nos seus pés.
Quando o seu vestido dança
em chamasela põe fora da boca
o coração cansado.
Seus dedos como os pardais
procuram fugir,
como os sapatos de flamenco
na madeira do soalho.

Ela dança em chamas.
Por isso põe fora da boca
o coração cansado
e no seu vestido
o vento se derrama.

O seu coração bate.
Como os sapatos de flamenco
na madeira do soalho.

Os seus pés em água desenhados.
"Sou feminina,
menina,
mulher,
a vida me ensina,
a vida me é sina,
sou fêmea,
sou fama,
sou filha,
sou drama,
da vida,
oficina,
sou tudo que rima,
sou quem desatina,
sou sina maior."